terça-feira, 7 de agosto de 2012

DISCRONIA


Nascera no futuro, no porvir da massa de segundos, horas e minutos que cortam cronologicamente o que se chama de tempo, nascera no tempo que ainda não era; nos segundos ainda não cortados pela lança afiada dos relógios e encarcerados na prisão hebdomadária dos dias da semana, da sequencia dos meses e do suceder dos anos. Já era, mas ainda não sendo. Era o porvir do seu ainda não existir que somente existia na sucessão do que seria se fosse, sendo que já era, mas somente na sucessão do que ainda não era.
Inventava-se então como consequência de um passado que nunca houve, era o produto concreto do que nunca foi mas que ao mesmo tempo era no que seria o resultado de sua sequência posta sob a forja do tempo.
Amputara o tempo, cortou fora o que dele não lhe interessava. Subtraiu etapas. Destas só lhe interessou o futuro e decidiu que seu nascimento somente se daria neste. Resolveu não habitar o presente e o passado retalhou e engoliu paulatinamente, mas este tinha gosto de ar, de sopro vazio posto que nele nada havia sido inscrito.

Escolheu ser o que é do que nunca foi, o sendo do que nunca houvera e o que poderia ter sido do que nunca ocorreu.

E assim revolucionava, pois as revoluções amam aqueles que ainda não existem, já existindo.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

......


                                                                   

Ah, não sei nada! Estou repleto de insipiência. Repleto de tudo aquilo que não preenche espaço algum, que nada diz por nada ter a dizer por nada saber. Estou repleto daquela falta que inunda a mente de todos os imbecis, doutores da falta de tato, de gosto, de palato que pronuncie algo, sou daqueles que querem o mar; infindável ir e vir de ondas espasmódicas a se espraiar nas vagas do que se chama de pensamento. Tenho o tino perdido, embiocado não sei onde que nunca mais o encontrei, e sabe se lá em que biboca ai dentro ele se enfiou. Perdido no que poderia ser uma seara, daquelas que são feitas de ideias de plantas férteis, que resplandecem verdejantes numa espécie de crepúsculo existencial com folhas verdes a farfalhar se despedindo do dia. Emaranhado em borbotoes de palavras que se misturam erraticamente por toda parte do que não se sabe o nome pois estas não se oferecerem para forma dar a este nome que não se diz, este impulso anonimo que ferve cheio de verve e flui que nem ressaca oceânica de empuxos e repuxos a querer transbordar os rincões daquilo que se chama de eu.

Ah, é um não-sei-que, é um não saber que se sabe que não se sabe, é um indizível percuciente, inenarrável que se destampa a ribombar em um fragor ensurdecedor que não se faz ouvir porque não é som , de algo que diz por não ter dito, é esse cheio vazio a retumbar em todos os recônditos, em todos os poros do que se é pra depois vir a ser aquilo que a palavra chama de nada e a gente chama de..............

terça-feira, 24 de julho de 2012

ERRO DATILOGRÁFICO


                                                    
Trabalhava em uma repartição, todos os dias sentava-se a postos a redigir os mais variados documentos; relatórios, protocolos, memorandos, ofícios, enfim, aquela parafernália que compõe toda confluência burocrática característica desses ambientes. Um único detalhe o destacava do restante  fazendo que fosse visto com um certo estranhamento por parte dos seus companheiros de profissão: ao invés do computador ele se utilizava de uma máquina de escrever.

O barulho intenso e constante provocado pelo bater das teclas no papel repercutia por todo o ambiente causando irritação em todos os presentes que sempre lhe indagavam o porquê da insistência no uso de instrumento tão arcaico, barulhento e muito pouco pratico aos quais ele redarguia “ é mais proveitoso”.

O curioso é que a cada erro cometido, ao invés fazer alguma emenda, voltar a datilografar em outra folha, ou encobrir o erro com líquido corretivo; ele arrancava a pequena letrinha inconveniente que aparecera no lugar errado e colocava em um pequeno caneco que ficava a seu lado. Assim fazia toda vez que algo era digitado de maneira indevida; erros de ortografia, um plural indevido, uma crase mal colocada, todos iam parar no caneco o qual no fim do dia terminava cheio.

Ao final do dia repetia um curioso ritual que deixava todos curiosos a olharem meso que de soslaio para sua execução: pegava a caneca repleta dos pedacinhos de papel produto de seus erros, colocava um pouco de água, misturava um pouco e tomava tudo de uma vez só e após aquele lauto hausto, prorrompia proverbialmente:
“ Que erros deliciosos!.” E ia-se.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

OS SAPATOS



Deparou-se na vitrine com o sapato mais encantador que poderia ter visto na vida. Ficou fascinada, hipnotizada pelo brilho das pequenas pedrinhas brilhantes que adornavam os contornos daquele sapato de bico fino muito alto e de um vermelho candente.
“Preciso tê-los!” . Pensou ela decidida.
__Lamento senhora, infelizmente este único par restante na loja é de uma numeração  menor do que a que a sra calça.
Disse o vendedor após tentar enfiar em seus pés os tão desejados sapatos. Mesmo que antes este tenha perguntado o seu número e informado que não dispunha da numeração referida e esta numa atitude obsedante insistiu para que os experimentasse.

__Não tem problema! Retrucou com tenacidade.
__Ficarei com eles mesmo assim! Concluiu.

E levou os sapatos.

Ao chegar em casa, correu para a cozinha pegou a faca mais afiada que tinha e a custa de muita dor e esforço conseguiu cortar os cinco dedos e cada pé e ligeiramente calçou os sapatos.

__Ah...Agora sim! Eu não disse que eles iam me servir? Nossa, cabem como luvas em meus pés.
E contemplava-se no espelho, com aquele belo par de sapatos vermelho incandesceste ornado com pedrinhas brilhantes, enquanto que pelos cortes nos dedos o sangue jorrava incessantemente. Mas ela não se importava, afinal de contas se tratavam de sapatos vermelhos e ninguém iria notar o vermelho do sangue.

domingo, 22 de julho de 2012

O TEMPO


                                                                    

Ao se olhar no espelho sentiu o toque de algo que se passa ao notar as linhas em seu rosto, como sulcos que se fundem no solo pelo cravar constante de pás a marcá-lo com uma tenacidade e obstinação de quem veio para executar seu trabalho de forma resoluta e objetiva. Esse algo que passa não se diz diretamente, se pronuncia através dessas linhas que ao invés de escritas com terna frugalidade, são fincadas a marretadas na superfície onde ele as registra. O tempo é ácido, é férreo, impondo sua onipresença repleta de segundos a rasgar a eternidade com sua inexorabilidade compassada e isócrona. É algoz cronológico da existência, clamando tudo o que é seu, tudo que por ele passa sem nunca escapar-lo. Ele é o que sempre resta, pois é o que nunca foi.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ACALANTO


“Descansa a tua alma na minha e deixa tudo ser como é; torto, inacabado, como tudo que é humano tem de ser”. Disse ela, num espasmo existencial que se alongava até que alcançasse o seu outro-- ela quando sendo um tu-- o seu reverso. Alteridade embrionária a despertar o seu quê de ser pulsante, percuciente. Abrigava esta outra presença em sua alma como se esta fosse um ninho acolhedor em sua essência de pequenos fragmentos-- tecido com um zelo inflamado pelas torrentes sanguíneas ígneas de uma tenacidade e determinação de músculo cardíaco--, fragmentos colhidos um a um a formar aquela estrutura uterina, maternal de um acalanto que alberga toda a candência de um sentir que se sente quando não se é um só.

domingo, 15 de julho de 2012

Furacões



Por fora era a personificação da placidez, por dentro; mil revoluções por minuto. Era daquele tipo de torvelinho velado que fica rodopiando quietinho no seu canto com muito cuidado para que sua fúria compacta não se esbarre em nada, em nenhum cristal, ou levante algum poeira alheia. Apenas arrasta tudo que esteja na zona limítrofe de sua revolução delimitada, furacãozinho cercado, contido em seu territoriozinho de tempestade que se explode ao mesmo tempo que se doma.

Era assim que ela era, odiava por dentro, amava por dentro , dentro de seu limite de forma, de corpo que se move impulsionado pelo que poe a vida pra viver. Mas afinal o que é que poe a vida pra viver? O coração não é. Porque quem é que poe o coração pra bater, pra pulsar? Quem faz o olho ver, quem é que bota? Será que é cada um por si só que bota? Quem bota a perna pra andar? A menta pra pensar? E quem é que bota quem bota pra botar? Essas interrogações que giram na cabeça, são os redemoinhos que revolucionam dentro de sua cabeça no seu furor constante, avassalador e ao mesmo tempo contido, d vento contido em arcabouço de cranio, de corpo de pessoinha qualquer que fica retendo furacões dentro de si, que os privam de serem o que são; livres, cegos de fúria levando tudo o que vem pela frente enfim, furacões.

Ela era um gaiola de furacões, os detinha os continha no seu corpo gradeado de aço feito d todos os medos derretidos e fundidos que formavam suas barras rígidas, soldadas qu juntas criavam este corpo de jaula, calabouço de revoluções que aconteciam sem cessar que não davam trégua de pararem de ser, de existirem, de tentar arrebentar e romper tudo que as contém. De vez em quando la abria a boca e la d dentro aqueles redemoinhinhos viam aquele alçapão se abrir formando um luz la em cima que descia por aquela abertura que mais parecia a tampa que haviam colocado no poço o qual eles jaziam no fundo. Ao s apercebem dessa oportunidade, dessa centelha de liberdade que se abira acima deles, iniciavam uma marcha em disparada na direção desta luz para podem ser livres e sair mundo afora rodopiando por onde quiserem sem nada que os impeça de serem o que são. Estes instantes ocorriam no momento em que ela estava prestes a soltar um palavrão, uma verdade, um grito de fúria, de ódio, de raiva, de alegria, espanto mas que por algum motivo ela deixava de soltar e continha todo esse impulso fechando a boca e fazendo com que todo os redemoinhozinhos em disparada se chocassem uns aos outros em sua boca ate que fossem engolidos de volta e voltassem pro seu fundo de poço escuro e úmido. Era gaiola, jaula, calabouço. Isso dependia da natureza do vento, de sua força e do estrago que ele podia causar, dai se tirava o grau de contenção das revoluções internas que nela aconteciam.

Às vezes quando estava quieta , seus redemoinhos, tornado, furacões e até tufões( sim, ela também abrigava tufões) se debatiam com tanta força dentro dela no desejo de sair que do nada vinha aquela vontade de chorar sem saber o motivo mais ai então ela segurava o choro, as lágrimas que estriam prestes a brotar a inundavam por dentro fazendo encher o poço que abrigava os pobres redemoinhozinhos que tentavam volta e meia escapar sem sucesso. Tudo por dentro explodia, uivava de tanta verve querendo verter-se, mas tudo por fora era calmo, quase morto, monótono, embotado. Era de uma languidez rançosa, ressaibos de lesma que ficam no caminho traçado que fazem lembrar de tudo que poderia ter sido se a potencia por dentro fosse. Se soltasse. Mas também se se solta, se se sai, se se rompe oque dela haveria de ser? Ficaria oca, vazia despreenchida de todos esses ventos que lhe inflam, que lhe dão corpo, que a deixam de pé. Iria se tornar vazia, um balão murcho sem forma, sem mais serventia. Jaula vazia.

Talvez tivesse que ser assim mesmo, vai ver ela era um espécie de salvadora do mundo ao salvá-lo diariamente de um catástrofe por não deixar que essa fúria da natureza contida em si se espalhasse acabando com tudo que encontrasse pela frente devastando o planeta inteiro. Então neste ato diário de heroísmo devastava-se por dentro para que o mundo não fosse devastado.

No seu caminhar solitário pelas ruas a se esbarrar nas pessoas, passava despercebida, mal sabendo quem em nela se esbarrava que esbarrara-se na sua própria salvação, e cada um a carregar seu próprio apocalipse no bolso.