quarta-feira, 1 de maio de 2013

A Fuga


Fugia de si. Numa tentativa febricitante de encarar fora do espelho o que na sua percepção se dava sempre sob o crivo insólito que perfaz toda experiência pejada de estranhamento que dá-se no abrir de toda identidade: o deparar-se com o tu de si mesmo. O outro que é inferno e fúria abissal feito cratera aberta que tudo absorve pra depois regurgitar dando vazão a uma torrente desgovernada  de tudo que se diz, de onde deslizam todas as palavras que se possam dizer  daquilo que viceja apesar de estanciar-se numa espécie de limbo alagoso repleto de limo que escorregadia-se  não servindo de regaço nem aconchego pra quem nele espera seu juízo, juízo de  réu, res.  Reificada. Res alter, por haver cometido o  crime  hediondo e imperdoável de ser,  inocentemente ser e ter irrompido na vida raiando ignota de tudo, feito vertigem que se transmuta em traço, traço maldito traçado em cada um que nela, a vida, ousa e nasce.
  Foge-se incauto, açodado, com outrossims em forma de pedras a crepitar por debaixo dos pés num atrito constante que ressoa e deliberadamente diz .Que a vida é pedra. E agora fricciona-se avassaladoramente contra tudo que em nela grita ensandecidamente num berrogrogue a expelir em fragorosas cadências incendiadas por toda autoridade da potência: OUTRO! OOOUUTRO!
 E o outro que de si sai, caminhando a sua frente a lhe dar as costas, indo ser si mesmo. Fora do si que de si era. Esse outro, não grita, não berra, não clama. Pois já é o próprio grito transmutado em alteridade cuspida pra fora, que não podendo ser outra dentro de si, foi se ser lá fora, do lado de fora, a mesma, mas fora de si. Extrapolando-se.
Num si de mesmos outros.
Em outros de mesmo si.

Fome de ser, fleuma voluntário. Livrando-se da coima de dizer:              EU!

Sendo apenas


OUTRO


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PUREZA


  O sentimento nem sempre vem puro, entende-se por isso que tudo deve possuir um estado natural, original e genuíno de como quando as coisas começam a ser e ainda não se misturaram a outras coisas que estão a começar ou já haviam começado a ser. E essa pureza, renitentemente clamada numa súplica ad eternum pela humanidade; nada mais é do que um percalço que muito mais do que um óbice regular da vida, torna se ponta aguda de perfuração lancinante , toque fino de candência de dor que por se transmitir por canalículo de espessura extremamente mínima se condensa, concentrando em si toda a dor que uma dor pode doer, essa concentração revela sua pureza, de dor pura que é por não misturar-se a mais nada e ser composta daquilo que originariamente é, apenas dor. Não é cansaço, não é derrota, não é espera eterna, não é desterro, não é desilusão, não é amor barato não correspondido, não é faca, não é ferro, não é fogo queimando, não é mentira quando se acreditava ser verdade, não é indiferença, não é tristeza, não é desalento, não é ferida, não é decepção, não é a morte, não é doença, não é ferimento de bala, não é uma cacetada na cabeça, não é corte, não é atropelamento, não é pedrada, não é dente podre, não é traição, não é surra de marido, não é a vida dizendo não, não é. E a mais pura dor, cristalina em sua pureza de coisa pura passada em crivo a separar nela aquilo que de sua essência não fazia parte, aquilo incapaz de acolher sua espessura de dor, em si, límpida, cristalina sem motivos, substancia em si, fino extrato extra virgem da mais pura dor.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

DISCRONIA


Nascera no futuro, no porvir da massa de segundos, horas e minutos que cortam cronologicamente o que se chama de tempo, nascera no tempo que ainda não era; nos segundos ainda não cortados pela lança afiada dos relógios e encarcerados na prisão hebdomadária dos dias da semana, da sequencia dos meses e do suceder dos anos. Já era, mas ainda não sendo. Era o porvir do seu ainda não existir que somente existia na sucessão do que seria se fosse, sendo que já era, mas somente na sucessão do que ainda não era.
Inventava-se então como consequência de um passado que nunca houve, era o produto concreto do que nunca foi mas que ao mesmo tempo era no que seria o resultado de sua sequência posta sob a forja do tempo.
Amputara o tempo, cortou fora o que dele não lhe interessava. Subtraiu etapas. Destas só lhe interessou o futuro e decidiu que seu nascimento somente se daria neste. Resolveu não habitar o presente e o passado retalhou e engoliu paulatinamente, mas este tinha gosto de ar, de sopro vazio posto que nele nada havia sido inscrito.

Escolheu ser o que é do que nunca foi, o sendo do que nunca houvera e o que poderia ter sido do que nunca ocorreu.

E assim revolucionava, pois as revoluções amam aqueles que ainda não existem, já existindo.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

......


                                                                   

Ah, não sei nada! Estou repleto de insipiência. Repleto de tudo aquilo que não preenche espaço algum, que nada diz por nada ter a dizer por nada saber. Estou repleto daquela falta que inunda a mente de todos os imbecis, doutores da falta de tato, de gosto, de palato que pronuncie algo, sou daqueles que querem o mar; infindável ir e vir de ondas espasmódicas a se espraiar nas vagas do que se chama de pensamento. Tenho o tino perdido, embiocado não sei onde que nunca mais o encontrei, e sabe se lá em que biboca ai dentro ele se enfiou. Perdido no que poderia ser uma seara, daquelas que são feitas de ideias de plantas férteis, que resplandecem verdejantes numa espécie de crepúsculo existencial com folhas verdes a farfalhar se despedindo do dia. Emaranhado em borbotoes de palavras que se misturam erraticamente por toda parte do que não se sabe o nome pois estas não se oferecerem para forma dar a este nome que não se diz, este impulso anonimo que ferve cheio de verve e flui que nem ressaca oceânica de empuxos e repuxos a querer transbordar os rincões daquilo que se chama de eu.

Ah, é um não-sei-que, é um não saber que se sabe que não se sabe, é um indizível percuciente, inenarrável que se destampa a ribombar em um fragor ensurdecedor que não se faz ouvir porque não é som , de algo que diz por não ter dito, é esse cheio vazio a retumbar em todos os recônditos, em todos os poros do que se é pra depois vir a ser aquilo que a palavra chama de nada e a gente chama de..............

terça-feira, 24 de julho de 2012

ERRO DATILOGRÁFICO


                                                    
Trabalhava em uma repartição, todos os dias sentava-se a postos a redigir os mais variados documentos; relatórios, protocolos, memorandos, ofícios, enfim, aquela parafernália que compõe toda confluência burocrática característica desses ambientes. Um único detalhe o destacava do restante  fazendo que fosse visto com um certo estranhamento por parte dos seus companheiros de profissão: ao invés do computador ele se utilizava de uma máquina de escrever.

O barulho intenso e constante provocado pelo bater das teclas no papel repercutia por todo o ambiente causando irritação em todos os presentes que sempre lhe indagavam o porquê da insistência no uso de instrumento tão arcaico, barulhento e muito pouco pratico aos quais ele redarguia “ é mais proveitoso”.

O curioso é que a cada erro cometido, ao invés fazer alguma emenda, voltar a datilografar em outra folha, ou encobrir o erro com líquido corretivo; ele arrancava a pequena letrinha inconveniente que aparecera no lugar errado e colocava em um pequeno caneco que ficava a seu lado. Assim fazia toda vez que algo era digitado de maneira indevida; erros de ortografia, um plural indevido, uma crase mal colocada, todos iam parar no caneco o qual no fim do dia terminava cheio.

Ao final do dia repetia um curioso ritual que deixava todos curiosos a olharem meso que de soslaio para sua execução: pegava a caneca repleta dos pedacinhos de papel produto de seus erros, colocava um pouco de água, misturava um pouco e tomava tudo de uma vez só e após aquele lauto hausto, prorrompia proverbialmente:
“ Que erros deliciosos!.” E ia-se.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

OS SAPATOS



Deparou-se na vitrine com o sapato mais encantador que poderia ter visto na vida. Ficou fascinada, hipnotizada pelo brilho das pequenas pedrinhas brilhantes que adornavam os contornos daquele sapato de bico fino muito alto e de um vermelho candente.
“Preciso tê-los!” . Pensou ela decidida.
__Lamento senhora, infelizmente este único par restante na loja é de uma numeração  menor do que a que a sra calça.
Disse o vendedor após tentar enfiar em seus pés os tão desejados sapatos. Mesmo que antes este tenha perguntado o seu número e informado que não dispunha da numeração referida e esta numa atitude obsedante insistiu para que os experimentasse.

__Não tem problema! Retrucou com tenacidade.
__Ficarei com eles mesmo assim! Concluiu.

E levou os sapatos.

Ao chegar em casa, correu para a cozinha pegou a faca mais afiada que tinha e a custa de muita dor e esforço conseguiu cortar os cinco dedos e cada pé e ligeiramente calçou os sapatos.

__Ah...Agora sim! Eu não disse que eles iam me servir? Nossa, cabem como luvas em meus pés.
E contemplava-se no espelho, com aquele belo par de sapatos vermelho incandesceste ornado com pedrinhas brilhantes, enquanto que pelos cortes nos dedos o sangue jorrava incessantemente. Mas ela não se importava, afinal de contas se tratavam de sapatos vermelhos e ninguém iria notar o vermelho do sangue.

domingo, 22 de julho de 2012

O TEMPO


                                                                    

Ao se olhar no espelho sentiu o toque de algo que se passa ao notar as linhas em seu rosto, como sulcos que se fundem no solo pelo cravar constante de pás a marcá-lo com uma tenacidade e obstinação de quem veio para executar seu trabalho de forma resoluta e objetiva. Esse algo que passa não se diz diretamente, se pronuncia através dessas linhas que ao invés de escritas com terna frugalidade, são fincadas a marretadas na superfície onde ele as registra. O tempo é ácido, é férreo, impondo sua onipresença repleta de segundos a rasgar a eternidade com sua inexorabilidade compassada e isócrona. É algoz cronológico da existência, clamando tudo o que é seu, tudo que por ele passa sem nunca escapar-lo. Ele é o que sempre resta, pois é o que nunca foi.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ACALANTO


“Descansa a tua alma na minha e deixa tudo ser como é; torto, inacabado, como tudo que é humano tem de ser”. Disse ela, num espasmo existencial que se alongava até que alcançasse o seu outro-- ela quando sendo um tu-- o seu reverso. Alteridade embrionária a despertar o seu quê de ser pulsante, percuciente. Abrigava esta outra presença em sua alma como se esta fosse um ninho acolhedor em sua essência de pequenos fragmentos-- tecido com um zelo inflamado pelas torrentes sanguíneas ígneas de uma tenacidade e determinação de músculo cardíaco--, fragmentos colhidos um a um a formar aquela estrutura uterina, maternal de um acalanto que alberga toda a candência de um sentir que se sente quando não se é um só.

domingo, 15 de julho de 2012

Furacões



Por fora era a personificação da placidez, por dentro; mil revoluções por minuto. Era daquele tipo de torvelinho velado que fica rodopiando quietinho no seu canto com muito cuidado para que sua fúria compacta não se esbarre em nada, em nenhum cristal, ou levante algum poeira alheia. Apenas arrasta tudo que esteja na zona limítrofe de sua revolução delimitada, furacãozinho cercado, contido em seu territoriozinho de tempestade que se explode ao mesmo tempo que se doma.

Era assim que ela era, odiava por dentro, amava por dentro , dentro de seu limite de forma, de corpo que se move impulsionado pelo que poe a vida pra viver. Mas afinal o que é que poe a vida pra viver? O coração não é. Porque quem é que poe o coração pra bater, pra pulsar? Quem faz o olho ver, quem é que bota? Será que é cada um por si só que bota? Quem bota a perna pra andar? A menta pra pensar? E quem é que bota quem bota pra botar? Essas interrogações que giram na cabeça, são os redemoinhos que revolucionam dentro de sua cabeça no seu furor constante, avassalador e ao mesmo tempo contido, d vento contido em arcabouço de cranio, de corpo de pessoinha qualquer que fica retendo furacões dentro de si, que os privam de serem o que são; livres, cegos de fúria levando tudo o que vem pela frente enfim, furacões.

Ela era um gaiola de furacões, os detinha os continha no seu corpo gradeado de aço feito d todos os medos derretidos e fundidos que formavam suas barras rígidas, soldadas qu juntas criavam este corpo de jaula, calabouço de revoluções que aconteciam sem cessar que não davam trégua de pararem de ser, de existirem, de tentar arrebentar e romper tudo que as contém. De vez em quando la abria a boca e la d dentro aqueles redemoinhinhos viam aquele alçapão se abrir formando um luz la em cima que descia por aquela abertura que mais parecia a tampa que haviam colocado no poço o qual eles jaziam no fundo. Ao s apercebem dessa oportunidade, dessa centelha de liberdade que se abira acima deles, iniciavam uma marcha em disparada na direção desta luz para podem ser livres e sair mundo afora rodopiando por onde quiserem sem nada que os impeça de serem o que são. Estes instantes ocorriam no momento em que ela estava prestes a soltar um palavrão, uma verdade, um grito de fúria, de ódio, de raiva, de alegria, espanto mas que por algum motivo ela deixava de soltar e continha todo esse impulso fechando a boca e fazendo com que todo os redemoinhozinhos em disparada se chocassem uns aos outros em sua boca ate que fossem engolidos de volta e voltassem pro seu fundo de poço escuro e úmido. Era gaiola, jaula, calabouço. Isso dependia da natureza do vento, de sua força e do estrago que ele podia causar, dai se tirava o grau de contenção das revoluções internas que nela aconteciam.

Às vezes quando estava quieta , seus redemoinhos, tornado, furacões e até tufões( sim, ela também abrigava tufões) se debatiam com tanta força dentro dela no desejo de sair que do nada vinha aquela vontade de chorar sem saber o motivo mais ai então ela segurava o choro, as lágrimas que estriam prestes a brotar a inundavam por dentro fazendo encher o poço que abrigava os pobres redemoinhozinhos que tentavam volta e meia escapar sem sucesso. Tudo por dentro explodia, uivava de tanta verve querendo verter-se, mas tudo por fora era calmo, quase morto, monótono, embotado. Era de uma languidez rançosa, ressaibos de lesma que ficam no caminho traçado que fazem lembrar de tudo que poderia ter sido se a potencia por dentro fosse. Se soltasse. Mas também se se solta, se se sai, se se rompe oque dela haveria de ser? Ficaria oca, vazia despreenchida de todos esses ventos que lhe inflam, que lhe dão corpo, que a deixam de pé. Iria se tornar vazia, um balão murcho sem forma, sem mais serventia. Jaula vazia.

Talvez tivesse que ser assim mesmo, vai ver ela era um espécie de salvadora do mundo ao salvá-lo diariamente de um catástrofe por não deixar que essa fúria da natureza contida em si se espalhasse acabando com tudo que encontrasse pela frente devastando o planeta inteiro. Então neste ato diário de heroísmo devastava-se por dentro para que o mundo não fosse devastado.

No seu caminhar solitário pelas ruas a se esbarrar nas pessoas, passava despercebida, mal sabendo quem em nela se esbarrava que esbarrara-se na sua própria salvação, e cada um a carregar seu próprio apocalipse no bolso.

Enclave


                                                              Enclave



Aquele espanto inopinado de habitar a pele em que se habita e que sai como fragor dos poros, um brado exsudado do imo intransponível de se ser o que se é, quando a única camada inexorável é a da pele, essa inquietação que é própria de quem é enclave do mundo, esse estranhamento insular de ilha de carne e espírito que se poe no mundo direcionada exclusivamente por uma incerteza que faz parte da vertigem transfigurada em uma espécie de apanágio existencial que salta aos olhos desde o momento em que se nasce, sabe? Eu sei. Mas que caralho de nome tem isso?

Poeirazinha



A poeirazinha


Estava assentada, e então lhe puseram um nome, lhe deram endereço, família, profissão, marido, filhos, enfim; fizeram dela gente. Mas disso ela nada sabia, apenas deixava tudo tomar seu rumo como uma partícula ou saco plástico açoitados pelo vento que os conduz randomicamente na sua liberdade espacial de transito, pois o vento é livre; não se predetermina, ninguém o predetermina. Assim também com ela se ocorria, deixava-se levar, pela vida, por alguém, alguma coisa. Deixava-se. Deixava-se sempre, era sempre conduzida, carregada por uma maré não influenciada pela lua, pois esta era sua maré, conduzia-se por um não-sei-que que não podia chamar de vida, nem de vontade, desejo, anelo ou algo assim. Mas era conduzida. Criara seus filhos, cuidava do marido, da casa, da comida, do cachorro movida por um sopro sem nome que não era alma, não era espírito era mais um não-sei-que. Estava sempre pronta, sempre solícita, disposta, contida em rua retidão de se deixar, de se deixar lhe porem as coisas; nome, endereço, roupa, sapato, grampo no cabelo, batom, pênis enfim; nela se punham coisas pois deixava-se. Arranjaram-lhe uma vida, um destino, com número de registro e data de nascimento, pois a tinham ulteriormente a tudo isso posto pra nascer, fora posta pra nascer, era sempre posta, nunca pôs nada e mesmo quando punha foi porque fora posta a por. Deram-lhe aniversário, feriados nacionais, pátria. Lhe puseram numa pátria, no seu documento constava o nome de uma cidade, pois é, ela de fato tinha endereço no qual residia, mas morar já diz de outra coisa que para ela não fora posta, assim como pensar, pois tudo o que pensava lhe era posto na cabeça como todo o resto, como quando o seu marido a penetrava.
Ela era daquelas pessoas lançadas, não como pessoas que se lançam às coisas, mas pessoas lançadas. Estava sendo e não era, vivia sua vidinha de projétil arremessado, míssil teleguiado já é demais, afinal ela era só aquilozinho que se deixava por-se. Saco plastico flanante, é muito. Era poeirazinha daquelas que se acumulam no móvel de casa por falta de zelo na qual as crianças se divertem escrevendo seus nomes com os dedos. Seu destino parecia ser escrito assim, por brincadeira de pontas de dedos na poeirazinha que era. Ai quando não se quer a poeirazinha por perto, ou a se varre pra debaixo do tapete ou a se espanta com um espanador que a transporta e faz pousar em outra superfície que se configura em uma especie de molde ao qual ela se deixa assentar novamente e devotamente cumprindo seu papel de poeirazinha. Se quiser ser mais avassalador pode-se usar um aspirador, sugando-a por completo a lançando numa espécie de masmorra ou limbo (como queira) lá dentro do aspirador, lançada então neste hermetismo ela se contenta reclusa com sua condição de pó que é, de detrito indesejável e espera o compartimento se encher até que lhe esvaziem e a libertem numa lata de lixo, num lixão,num aterro. Se estiver com a sorte de passar um vento no momento do despojo ela pode pairar, livre sem destino, pois já não tem mais endereço, nome, marido, casa, filhos, cachorro, aniversário, batom na boca, sapato no pé, pênis na vagina, voltou a ser a poeirazinha que sempre fora e nunca soubera, tudo isso apenas fora-lhe prescrito enquanto estava assentada, descansando em superfície tomada como existência ditada por dedos a passar seu tempo escrevendo na poeirazinha, ai foi pega de surpresa sendo, vejam só! Tomando existência! Logo ela a poeirazinha.... É de se rir.

O CAOS


                                                                          Caos

Era feita de caos, daquele caos sagrado que funde tudo que é visceral e mundano, que perpassa toda a existência a procura de uma ordem que seja a da imperfeição organizada, a da sujeira límpida por ser honesta em sua podridão. E assim tudo era sagrado, do esgoto à hóstia. Dessa forma, ela também seria sagrada. O estampido que das batidas do seu coração saia de forma fragorosa retumbava a sua sacralidade de não saber se encontrar, de estar perdida dentro de si mesma, de não saber em qual recôndito, qual compartimento dentro de si se perdeu.

Estava esgotada, incerta de si mesma, perdida em um palavrório inesgotável que usava para traduzir sua indefinição em palavras. Absorta numa espécie de bruma, de delírio vertiginal que fazia que todo o preenchimento fosse vago, vazio em significado, sem importância.

Era o caos, e o caos era a regra, a ordem da incerteza rutilante que crispava a cavidade do que ela chamava de existência. Ela amava o caos. O caos a fazia ser, graças a ele ela era, se reconhecia como presença que o habita e reconhece. E por amar o caos amava a vida, tudo era sublimação, tudo era ardência pulsante que dizia do eterno.,do estertor que brota daquilo que ferve por dentro e que quer gritar de tão simples que é mas que se verte em algaravia quando dele se tentam apreender algo como agora acontece. É um ninho de palavras inertes, inócuas, rasas quando de trata de tocar o ardor do caos que lateja por dentro.

Ela era dessa espécie de gente, pedacinho de caos ambulante que vaga pela vida a procura de um abrigo, um espaçozinho pra se acomodar e se autoincomodar, de ser caos quietinha no seu canto, em paz. Ser caos e paz atados por laços de veias que são canais da explosão que nunca cessa em todos os corpos desde o início dos tempos mesmo depois de inertes, posto que estes no final sempre se transmutam para atuarem de maneiras diferentes das anteriores. Se sentia viva por ser caos, mesmo que não a amassem se sentia amada, pois era o amor do caos.

O caos é a ordem em si, sem ele não há troca não há gênese, fusão, ignição, atrito, fluxo, impulso, força, potência. Não há grito, não há voz, não há cópula, não há carne, nada nasce, nada cresce, pois dele tudo sai, tudo segue, tudo é. E é sagrado porque é. E Ela é.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O PAPEL



O PAPEL


Deparava-se com o papel. Branco, vasto, imenso em sua pureza de superfície lisa e vazia que se dá de bom grado e livremente para que nele se lancem tudo o que for tinta, palavra, palavra que vira tinta como que urdida no papel, atada. A mescla do escuro no claro. O escuro que vira buraco na planície branca da vastidão de uma terra de ninguém que se deixa colonizar.
Colonizado pela palavra que nele se imprime, o papel se torna humilde servo de tudo aquilo que pode ser circunscrito nos domínios do alfabeto. O papel é passivo, acolhe de bom grado a palavra que nele vai habitando gradualmente ou de forma brusca sob a força de uma máquina de imprensa.

O papel sofre calado, resignado em sua natureza de território invadido por palavras que dele tomam posse sem prévia anuência, às palavra pouco importa o que o papel possa sentir; aliás elas nem se dão conta de que este sente, aliás nem a gente se dá conta de que este sente.

Sempre fora renegado a segundo plano ao papel de simples suporte, sustentáculo de palavras, mídia. Sempre o que fica atrás das palavras a segundo plano, coadjuvante irreconhecido, renegado a sua imperceptibilidade de folha que se folheia por conter as suas colonizadoras, suas soberanas, tiranas desse pobre incauto. As palavras
O papel não reivindica, não grita, não diz, não expressa posto que não é palavra: é o mero receptáculo destas.

Da tinta que o mancha, invade e macula-o em sua pureza de ser que é e não se diz, mas que nele as palavras se dizem, “se” contam, “se” escrevem, “se” choram, “se” sorriem, “se” berram, “se” vomitam, se nada(m). Enfim, se tornam palavras.

Pois há aquelas que se nadam no papel, que reconhecem a potencia de seu caráter de vazio que diz tudo enquanto nada diz por conter a possibilidade de tudo que se pode dizer, mas que diz muito mais porque ele não se diz, pois ele diz do que não pode ser dito enquanto nada diz, o que é muito maior, mais profundo e mais vasto que tudo aquilo que se pode dizer, pois dizer é sempre um redução, é filtro, é metáfora, roupagem, é roupa que se veste no intangível , no inenarrável, no infinito para que deles se possa ter a ideia mais reduzida possível, que é a única possível.
Dizer sempre é um redução de tudo aquilo que é. E quem nada no papel compreendeu sua eloquência muda que de tudo diz porque nada diz, apenas é. E sendo dá-se a entender a quem queira, àqueles que nadam no papel, que ao o encararem o miram fixo, perplexos, anestesiados, hipnotizados pelo seu poder oceânico que tem a foça de atração de uma onda de ressaca pela qual são tragados e nadam, nadam em direção a um zênite imaginário por traz do qual tudo é e pode ser mais do que qualquer palavra alguma jamais poderá dizer.



Josué Murilo


Salvador, 09 de julho de 2012

quinta-feira, 3 de março de 2011

Mitágoras e a joaninha

  Mitágoras estava. Estava em algum lugar quando se deparou com uma joaninha. Naquele instante uma reveladora espécie de certeza  tomou conta do que possivelmente seria sua mente na forma de uma afirmação
         "TODO O COSMOS É PRODUTO DA IMAGINAÇÃO DESTA JOANINHA."
  Ele é completamente tomado por essa idéia que o  paralisou em um daqueles instantes que duram até menos de um segundo mas que contém a totalidade de todas as suas certezas abaladas neste microtinstante de tempo no qual perspectiva e a possibilidade dele ser produto da imaginação de um inseto que por ser portador de um aparato racional era o suposto criador de todas as coisas.
  Em seguida outro pensamento ainda mais desconcertante  que insistia em se afirmar como certeza em sua suposta mente se revelou:
   " Na verdade, TODO O COSMOS É SOMENTE A POSSIBILIDADE DA IMAGINAÇÃO DESSA JOANINHA."
 Ou seja.
 O cosmos inteiro é produto do que poderia ser a imaginação daquela joaninha se a ela fosse dada a possibilidade de pensar. Tudo então estava resumido à possibilidade do que poderia ser a imaginação dessa joaninha a respeito do cosmos. Tudo era a possibilidade do que poderia ser,se fosse.
  Então o cosmos é o que seria, se fosse possível ele ser se o que uma joaninha pudesse pensar como ele seria.
  O cosmos não é. Ele é o que não é. Ele existe existe no não-ser.
  Pois se a idéia de que ele poderia existir na mente de uma joaninha existe, (só que como de fato a joaninha não pensa, ele não existe), então ele existe no seu contrário, na possibilidade oposta do seu não-ser que é o ser. Pensou Mitágoras.
  " Eu existo apenas como possibilidade!? Existo apenas preso dentro dos limites dessa possibilidade!? Eu sou apenas uma possibilidade!?!?"
  E Mitágoras ficou atônito.
  Resolveu se deslocar do lugar onde se encontrava e caminhar, ver o mundo, mundo esse que era apenas uma possibilidade de imaginação de uma joaninha se a esta fosse possível conceber algum tipo de pensamento.
  E ele pára.
  "Bom, se nesta simples joaninha está contida a provável possibilidade da existência de tudo, é melhor eu tomar conta dela."  Retorna a onde estava acolhe a joaninha em suas mãos e a observa:
  E ao observá-la uma espécie de voz afirmativa ecoa em sua cabeça com uma sentença atordoante: " TODO O COSMOS, O UNIVERSO COM SUAS GALÁXIAS, SISTEMAS, ESTRELAS, CORPOS, PLANETAS ESTÃO CONTIDOS EM UM ÚNICO ELÉTRON DE UM ÁTOMO QUE SE ENCONTRA NA PINTINHA PRETA DA CARAPAÇA VERMELHA DA JOANINHA."

  Mitágoras se sente mal, se sente sufocado, apertado, abafado, hermético.

" Quer dizer que tudo se resume a isso!?"
  Se sente impotente e então ri. Ri de toda prepotência do ser humano, que se julga potente, deus, semi-deus quando não passa de uma possibilidade de existência contida numa fração de um elétron contido num átomo localizado numa pintinha da parte esquerda da carapaça vermelha de uma joaninha.

 "Coitados! Mal sabém! Huahuhauahuaha!"

  E chora, chora porque ele sabe.

 De repente ele se dá conta de que o universo é negro porque negra é a pinta da joaninha na qual está o elétron que contém toda a existência na sua possibilidade de ser.

  E Mitágoras se pergunta.

  "Mas como eu posso ser apenas uma possibilidade sea idéia de que eu sou mera possibilidade me vem através de bombásticas certezas?"

 E agora ele mão sabe. Não sabe por que ele é mera possibilidade e também não sabe se ele se saber como possibilidade é uma certeza.
 O poder ser ou não ser, sendo. Dentro da possibilidade de ser ou não ser, é a única possibilidade de existência de Mitágoras. Ou seja, uma existência que pode ser ou não ser, mas que é por já ser possível ser ou não ser. Sendo possibilidade.

"Estou preso! Preso!! Não tenho escolha!!! Não posso deixar de ser!! Pois na realidade eu não sou!!! Não posso deixar de existir pois eu nunca existi de fato!!! Sou apenas a possibilidade da minha existência pelo fato de eu não existir de fato!!!"

  " Estou perdido. Perdido no ser de meu não-ser! Existo na minha não-existência!"

"Socorro!!"

 E assim se desespera Mitágoras.

" Não posso existir! Nem deixar de Existir!"

E essa constatação faz com que um grande pesar invada tudo que ele pode sentir em um momento intenso e agudo de angústia.
 Mas a angústia passa. E Mitágoras se conforma, se conforma com sua condição de ser pelo fato de não ser.
 Estende seu dedo à joaninha e esta nele sobe. Sorri para seu insetinho-possibilidade-cósmica e respira fundo.
 " E de agora em diante, como agir?"

Pondera e pondera...
E mais uma vez não sabe.
 Mas então em um estalo ele se da conta que aquele momento com a joaninha não passava de mais um dos seus devaneios filosóficos que põe tudo à prova e que tentam abalar as estruturas do seu ser.
 E assim dá um piparote com o dedo na joaninha e esta alça voo. E tudo volta a ser como antes no bom e ordinário mundo de Mitágoras.
 Enquanto isso, numa calçada a joaninha caminha com suas patinhas pequenas e ligeiras o seu passo rápido e curto de sempre a examinar os milímetros do que Mitágoras se acostumara a chamar de mundo. Ela caminha em direção a grama, ao verde que pra ela nem é cor e sim algo que representa o que podemos chamar de fonte de manutenção da vida; só que na direção oposta um garotinha passa também frenética em seu passinho apressado e frenético em direção ao que pra ela se chama grama e da cor verde e sem perceber pisa e esmaga a pobre joaninha.

 ESCURIDÃO TOTAL

E no outro lado da cidade, os olhos de Mitágoras também escurecem.

Nada mais existe, nem mais poderia existir. Pois agora o próprio existir deixou de existir.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Mitágoras e o "riscar".

 Mitágoras estava caminhando no parque quando de repente sentiu um arranhão em suas costas; como se uma espécie de objeto pontiagudo  as tivesse riscando. Continuou a caminhar.
 Alguém o cumprimentou com um " Bom dia". E ao responder o " bom dia" com outro " bom dia" teve a sensação de que sua língua fora arranhada por uma agulha finíssima deixando um gostinho azedo na boca  como quando a língua se machuca.
 Esses arranhões deixavam dores ardidas e pungentes. O arranhão, uma espécie de "risco" em suas costas ardia, assim como o da sua língua também. Mas sangue não havia, havia somente ardor.
 Se sentia estranho, sem saber o que era aquilo e que significado poderia ter. Desespero não era a palavra. Estranhamento sim. Abismamento também.
 Ardia. Então ele começou a correr; a situação piorou. Sentiu mais arranhões o atingirem, agora um em cada batata da perna, nos calcanhares nos dedos dos pés, nas coxas, suas pernas completamente arranhadas. Diminuiu o rítmo e a intensidade  e o ardor diminuiram. Arfou e agulhas rasgaram seus pulmões.
Não dava para continuar, parou de correr. Examinou suas pernas, não havia arranhão algum, mas a dor era lancinante. Examinou a sola dos pés, a dor do corte era profunda, mas não havia corte.
 Desespero. Agora sim esta era a palavra. O rítmo da sua respiração aumentou, e seus pulmões ardiam. Suor começou a escorrer pela sua testa e cada gota de suor era como um espinho que rasgava seu rosto ao descer por ele.
  A cada parte do seu corpo a qual ele dirigia seu pensamento a sensação cortante era intensa e insuportável, seu corpo inteiro parecia estar sendo arranhado, cortado, circunscrito em uma espécie de região limítrofe que se delimitava através da dor.
  Com muito esforço conseguiu caminhar até em casa, mesmo que com a cada cada passo dado suas pernas sofressem arranhões os quais ele realmente sentia mas não os via.
  Entrou em casa, e com rapidez bateu a porta. Mas algo diferente aconteceu quando ele olhou para a porta e nela fixou o seu olhar; o olhar em cada detalhe em cada traço da madeira, nas imperfeições, nos contornos da maçaneta e ao fazer isso começou a ouvir sons de pequenos riscos sendo feitos na porta que se intensificavam e ficavam  cada vez mais altos a medida que ele fixava seu olhar nestes detalhes.
 E começou a olhar ao seu redor. Olhar as paredes, a mesa, as cadeiras, as rachaduras nas paredes, o carcomido do tampo da mesa, as pequenas falhas nos talheres, a fenda no telhado que deixava escapar a luz do sol e a água da chuva e tudo isso tomou proporções gigantescas pois o barulho de risco rabisco se intensificou em sons estridentes e ensurdecedores.
  Ao se olhar no espelho sentiu  como se todos os contornos do seu rosto estivessem sendo talhados em suas extremidades por algo pontiagudo que de certa forma ao mesmo tempo que parecia o deformar estava lhe dando vida.
 Tudo ardia, tudo rangia, rachava, rasgava, se cortava. Nada escapava, tudo o que pudesse ser percebido pelo seu olhar e apreendido por sua mente sofria o "rasgo", o "riscado" do seu pensamento.
 E Mitágoras percebeu que o único lugar que o risco não riscava e que não ardia; era sua mente. Era como se esta fosse imune a ele, permanecendo intacta.
 Mas por quê?
 Parou e pensou, pensou em meio a todo ardor e ranhuras dos quais era vitimado. E percebeu que sua mente não era riscada. POIS ERA ELA QUEM RISCAVA, era ela quem provocava os arranhões e consequentemente o ardor que tomava conta de todo o seu ser e do ambiente ao seu redor pois tudo partia dela.
 E se perguntou novamente "mas com o que ela riscava?" " que instrumento ela utilizava para riscar e arranhar seu ser e os objetos ao seu redor?" "qual seu objeto cortante, que talha, que circunscreve?".
 Ficou parado, imóvel, pensando em qual seria esse objeto. E de repente ficou pasmo, atônito, boquiaberto. Se sentiu um idiota; era só olhar para a sua mão e lá estava resposta: ela segurava um lápis. E com este ela escrevia freneticamente.
 Se dera conta de que todo esse tempo ele não havia saído do lugar, tinha estado o tempo todo sentado  à mesa com um lápis na mão escrevendo no papel tudo o que  se passava por sua cabeça, o conteúdo o qual a partir do momento que era lançado no papel em forma de escrita, risco, rabisco o fazia ter a nítida percepção de experiência real  daquilo de que da ponta do lápis saía.
 Na verdade, Mitágoras escrevia a si mesmo. se dizia, se criava, se inventava. Era contador de si mesmo, escritor de seu destino.
  A ponta do lápis era o condão pelo qual tudo acontecia e se fazia real, o que era escrito era vivenciado e escrito ao mesmo tempo. Era senhor de si sem sabê-lo; autoridade do próprio destino sem consciência desta. 
 Agente e paciente de todo o seu ser. Mitágoras era o próprio lápis.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O escuro e o claro de Mitágoras.

  Estava escuro ,luz apagada. Fechara os olhos deitado na cama para dormir.
Quando fechou os olhos, ao invés de continuar escuro, tudo ficou claro, uma claridade intensa como se uma espécie de holofote tivesse sido aceso.
  Abriu os olhos novamente. Novamente escuridão. Fechou-os. Claridade.
  Queria dormir, tinha sono. Mas quando fechava os olhos estava demasiado claro, impedindo impedindo qualquer possibilidade de um possível sono. Serotonina completamente inibida em seu organismo. Deveria então dormir de olhos abertos, já que assim tudo ficaria escuro e a liberação de sua serotonina seria liberada?
  Olhos abertos. É como se estivesse dormindo no escuro, mas de olhos abertos. Olhos fechados, era como se estivesse acordado, mas de olhos fechados.
  Assim Mitágoras permaneceu por toda a noite. Abrindo os olhos para dormir e os fechando para acordar.

Lhe ocorreu um estalo:
" E se eu acender a luz? Será que a  ordem das coisas se reestabelecerá?"

Levanta  e acende a luz. Mas quando aciona o interruptor percebe que a luz estava acesa e que neste momento ele a tinha apagado.

" Como pode ser?! Então todo este tempo a luz estivera acesa?? Mesmo quando eu abria os olhos e via tudo escuro e quando os fechava e tudo se clareava?"

 Confusão e dúvida tomam conta de Mitágoras.
 Mitágoras agora não sabia se a luz de fato estava acesa ou apagada, e pior, se estava de olhos abertos ou fechados Se ao pensar que os abria os fechava ou que ao fechá-los na verdade os abria.
 Claro, escuro, fechado, aberto. Tudo se confundia e se fundia. Agora não sabia se a vida que tinha quando se julgava de olhos abertos e acordado era real ou se era um sonho por estar dormindo crendo estar acordado ou se os sonhos que tinha quando estava de olhos fechados estando supostamente dormindo eram a realidade que se passava por sonho por acreditar que dormindo estava.
 Ordem invertida. Estava acordado crendo estar dormindo e dormia acreditando estar acordado. Não sabia se ao abrir os olhos os fechava e se quando os fechava estava a abri-los.
 Piscava inúmeras vezes na esperança de que na incessante repetição do piscar tudo voltasse a ordem  normal das coisas.

" Mas e se na verdade ordem alguma jamais tivesse existido? Se a desordem fosse a unica ordem? Se sonho e realidade não passassem de meras perspectivas? E fossem na verdade um emaranhado sem lógica mascarados em supostas lógicas forjadas por supostas subjetividades?"
" Claro, escuro. Quem determinou qual é qual? Já que não passam de conceitos?"

  Não sabe mais se está no claro ou no escuro, no sonho ou na realidade, de olhos abertos ou fechados.
  Pisca com mais velocidade ainda, tudo são flashes muitos rápidos como os de um projetor de filmes no qual o intervalo de troca de um quadro para outro é quase imperceptível e tem-se a ideia de uma imagem contínua que na sua aparente continuidade possui algo de descontínuo imperceptível: o intervalo entre um quadro e outro.

   A velocidade das piscadas aumenta a ponto de Mitágoras não sentir mais que possui pálpebras que piscam, lhe dando a sensação de que seus olhos estão abertos ininterrupatmente por não mais perceber as piscadelas. Mas ao mesmo tempo e na mesma proporção o tempo que os seus olhos permanecem fechados pela rapidez das piscadas é o mesmo do qual eles permanecem abertos. Embora tendo a sensação de que estão abertos continuamente, eles também permanecem fechados. O fechar se funde no abrir. O escuro se funde no claro. O sonho na realidade. E conceitos não existem mais.

  Mitágoras pára de piscar.

  A imagem se torna estática e extática.
  Ele se sente estático e extático.
  Tudo ao mesmo tempo.

  Estático por não saber se está claro ou escuro , aberto ou fechado e se é sonho ou realidade.
  Extático pelo êxtase do inesperado que o invade com toda força da inação perante o absurdo inexplicável que se apresenta na sua experiência de ser.

  E você a que por algum acaso está a ler estas palavras. Tem certeza mesmo que as está lendo? Que está acordado e consciente que as lê? Que seus olhos estão abertos e as lendo e não fechados a imaginá-las? Que esta tela na verdade esta em branco e que não há caracter algum nela que possa ser lido? Que a vida que você vive é de fato sua vida ou algum tipo de idílio pelo qual você passa quando está de olhos fechados? Será que agora mesmo neste exato momento você realmente vivencia este momento ou apenas julga vivencia-lo? Será que o ser que você é é realmente o ser que você é de fato e se de fato e se de fato você é algum ser que é?
  Afinal de contas, tudo não passa de conceitos. E conceitos sempre foram e sempre serão forjados.
  Quem os determina?
  Tudo é incerteza  e disso Mitágoras tem certeza.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Mais Mitágoras

  E Mitágoras não era mais quem era, até porque ele não era alguém que era. Ele parou e pensou como seria se ele fosse alguém que fosse alguém. Mas este pensamento para ele era inconcebível de tal forma que ele ao tentar pensar sobre isso; que ele se tornava alguém que não era e que pensava como seria se fosse. E assim se dava o seu ser. Em verdadeiros “nós” de possibilidades de ser que apenas existiam através da hipótese do que possivelmente poderia ser se pudesse ser.

Afogado em seus nós, este ser que não era alguém que era, mas que era alguém que pensava como seria se fosse, continuava a pensar o seu possível ser e assim criou seu mundo ao seu redor, dentro de si se este Si fosse e então tudo era na sua possibilidade de poder ser.
O mundo de Mitágora e o próprio Mitágoras eram um só; uma só pessoa que era pessoa e mundo inteiro ao mesmo tempo. Ou seja, Mitágoras era ele e o mundo que ele criava sua alteridade era diversa e singular ao mesmo tempo. Qualquer objeto, pessoa, coisa etc eram a única coisa existente e ao mesmo tempo a parte de um todo de vários. Mitágoras era única coisa que exstia e ao mesmo tempo apenas umas das milhares que eram. E assim em círculos seu ser era. Existindo em vários e apenas sendo um. Sempre um e todos. Em incontáveis letras que são sempre as mesmas e que formam palavras que são escritas e lidas a todo tempo e sempre, sempre sendo as mesmas letras e palavras mas nunca significando as mesmas coisas.

Mitágoras e Só.

    Mitágoras, este é meu nome. Mas o que vem a ser um nome? Algo que por meio de de símbolos chamados letras que combinados formam morfemas e fonemas que por sua vez formam uma palavra que representa um conceito de algo através de um código chamado de linguagem ?E este nome vem então a ser uma representação de algo ou alguém por meio de palavras? Certamente que sim. Se assim for-- então é o meu nome Mitágoras .
Sim, Mitágoras é meu nome. Mas e quanto a mim? Este ser que se chama Mitagóras o que sou? Já que Mitagoras é MEU nome e este portanto pertence a MIM; o que é então este MIM que afirma que o nome é MEU, que possui este nome e que afirma ser seu este nome? Bem, a esta pergunta não tenho resposta e de fato não sei se algum dia terei. Portanto me calo, calar não, pois não estou a falar e sim a escrever, ou ser escrito não sei ao certo, só sei que digo( escrevo) ou afirmo algo a MEU respeito ou é dito(escrito) algo ao MEU respeito, pois não sei bem se sou EU que estou a dizer(escrever) algo a meu respeito ou se apenas coisas estão sendo ditas(escritas) ao meu respeito.
A dúvida me toma, pois não sei se sou algo que possa possuir um nome, se sou eu que digo(escrevo)estas coisas a meu respeito ou outro alguém as diz(escreve). SE é outro alguém as diz( escreve); como se explica o fato de EU usar freqüentemente pronomes pessoais como EU, MEU, MIM? SE de fato não sei nem realmente sou algo, muito menos um eu? Se EU não sou um EU como posso ao mesmo tempo referir- me A mim mesmo sempre de modo tão pessoal? Como se realmente fosse Eu que estou a escrever tais coisas? Os pensamento se embaralham. Preciso de pausa para pensar.
Pausa.


Os pensamentos não estão claros. Pensamentos? E por acaso eu os tenho? OU simplesmente alguém está aqui a registrar por meio do código da linguagem escrita que os tenho?Se a linguagem é escrita então eu deva somente existir no âmbito da escrita e não do fenômeno real, concreto, palpável. Mas se concebo a idéia do âmbito de um universo da escrito e outro de fenomemos pertencentes a escala do real palpável e concreto. Certamente é porque no mínimo se alguém esta a escrever sobre mim e sou fruto da imaginação deste, este outro que me escreve pertence a este âmbito do real, do palpável e do concreto e eu por conseguinte existo em sua mente de forma abstrata em um algo chamado de cérebro feito de terminações nervosas, sinapses, sangue, carne; entoa de certa forma tenho algo também de real, palpável e concreto. Mas e então?Ainda não sei.

Pouco importa se sou eu que estou a escrever isto ou se é alguém que escreve. O tédio me toma ou quem estar a escrever é tomado de tédio, já não o sei mais. De maneira que não vejo mais utilidade nem propósito em me dizer (escrever) ou que alguém me diga(escreva) por meio destas palavras. Sei que me chamo Mitágoras e pouco importa agora o que este algo indizível que se chama Mitágoras SÃO ou o que ou quem de fato é. Pois ao dizer que SEU nome é Mitágoras ele (EU ou OUTRO) já se limita(m) já se circunscreve(m) no limite de um algo que passa a ser um tal que se chama ou é chamado de Mitágoras e isto de certa forma encerra uma possível jornada que seria uma busca pelo entendimento, se possível este, o que acredito não o ser, a respeito deste ser, algo, amorfo, atemporal, fora de espaço ou qualquer relatividade que se auto afirma ou é afirmado por meio de palavras que se perdem em si mesmas por se reconhecerem incapazes e pouco precisas de alguma definição sobre o abismamento da experiência do que é ser algo, alguém ou qualquer coisa. Porque ao se utilizar palavras, a vertigem já deixa de ser, de ser neblina, de ser abismo, mesmo que o abismo se mostre por meio destas, este já deixou de ser abismo pois foi chamado de abismo e abismo de fato não tem nome, ele apenas é,é abismo no seu em si; prescindindo que se use qualquer palavra pra lhe dar nome ou usar qualquer código para delimitá-lo em conceitos , seja de linguagem, imagem ou que for . Vê? Ela, a linguagem já se perdeu em seu próprio abismo se estendendo em intermináveis palavras pra explicar o que é incapaz de explicar por ser limitada em sua natureza.
Entao basta que se diga Mitágoras, e qualquer outra tentativa de explicação do que venha a ser isto ou este ou EU; é e sempre será em vão.
Pois o ser não existe, ele apenas é.
Assim como a verdade também não existe, é apenas invenção. É louvável que a busquemos, mas há um grande perigo em acreditarmos que a possuímos.

eu Mitágoras e só.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

NASCIMENTO E MORTE DE MITÁGORAS

   Há um grão de areia, entre milhares de grão de areia, esse grão de areia sacode, se agita, incha e eclode.
Dele surge um homem, ele está nu. Ele saiu de dentro deste grão; mas não sabe o que signfica sair, nem o que é um grão e nem por que dele saiu.

Ele se levanta não fazendo a menor ideia do porque se levanta e o que seja o ato de levantar-se. Ele simplesmente se levanta.

Ele olha ao redor, sem saber que olha e muito menos o que é o ato de olhar e mesmo até que tem um olho que olha.

Ele vê coisas, pessoas, árvores, pedras, pássaros mas não sabe que aquilo são coisas, pessoas, árvores, pedras e pássaros. Digo mais, ele não sabe nem que ele é um ser e que estas coisas que ele está a ver são outros seres outras cosia que não ele. A alteridade pra ele não existe. Nem que ele existe ele ainda sabe.

Ele não sabe nem que não sabe, que existe nem o que seja existir e tampouco o que seja uma existência. 

Ele simplesmente está, está ali parado, sem saber o que é estar e o que seja estar parado.

Ele caminha, sem a mínima ideia do que seja caminhar, de que ele caminha e de que seja um ser que caminha.

As pessoas ao se depararem com aquele homem, que eclodiu de um grão de areia__ alheio a tudo inclusive ao seja ser alheio a algo__ se assustam se assustam com alguém que não sabe que é alguém, que no sabe o que é ser alguém e o que é ser alguém que assusta e o que seja assustar.

Ele é uma espécie de "nada", nada que tomou forma humana, que se personificou inconscientemente porque consciência alguma tinha posto que era um nada inconscientemente personificado em sua ignorância de ser nada e posto que era nada e o nada ignora o nada que é.

As pessoa se apavoram ao verem este nada personificado com o véu do humano, com esse nada que se fez humano e que delas se aproxima.

Elas gritam:

__Para trás!!
__Para Trás!!

Ele as ouve. Ouvir? Definitivamente não! As ondas sonoras captadas pelo seu suposto aparelho auditivo que obviamente ele não sabia possuir, não passavam de sons que por este aparelho eram convertidos em algo que ele não sabia que eram sons e que os estava ouvir. Ou Seja não sabia que tinha um ouvido, que ouvia e que estava ouvindo algo que se chamavam sons que produziam palavras as quais totalmente desconheceria.

Palavras que significam algo. Significar? Algo? "Algo" não existia para ele, não tinha noção de que algo existia  de que ele existia para perceber que algo existia.
Ele não sabe que está em um lugar, não sabe que ele é "um" e que o ambiente ao seu redor é "outro" outra cosia que não ele. Sem consciência de si próprio; ele está e é sem estar e nem ser.

E novamente os outros seres que sabem que são algo gritam:

__Para trás!!

Ele continua a caminhar, sem saber que caminha, nem o que seja caminhar, nem que alguém lhe grita; pois não sabe o que é alguém e o que seja gritar.

Outro ser grita novamente:
__Vou atirar!
__Vou atirar!

E ele continua, sem saber o que é continuar, sem saber que alguém grita que vai atirar. Pois não sabe o que é alguém, o que é gritar e muito menos o que venha a ser atirar.

O ALGUÉM ATIRA.

O tiro atinge sua barriga, a qual ele não sabe possuir e o que seja uma barriga. Ele sente o impacto, mas sem saber que sente e o que seja sentir. Olha para o ferimento causado pela bala, sem saber que aquilo é um ferimento que foi causado por uma bala e o que seja uma bala e sem saber que olha para o ferimento pois não sabe que olha nem o que é o ato de olhar, apesar de o fazer. Escorre sangue, sangue que ele não sabe que possui, nem o que vem a ser sangue o que venha a ser alguém que tem sangue e que sangra, que o sangue é vermelho, não sabe que vermelho é cor_ vocabulário em sua mente auto ignorada não existe__ existir é palavra que para ele não existe pois não sabe que o existir existe e que ele existe no existir do que vem a ser uma existência.

 Ele toca o sangue com seus dedos, que não sabe que são dedos, nem que tocam, nem o que seja tocar. Seus dedos ficam melados com seu sangue o qual ele não sabe que é seu , sem saber que tem dedos que tocam seu sangue por não saber que é alguém que sangra e que tem dedos pra tocar este sangue, mas mesmo assim ele o toca sem saber que toca, sem saber que é alguém que toca o sangue que tem. Que seus dedos são um parte de seu corpo o qual não tem consciência de possuí-lo pois não se distingue das demais coisas e seres ao seu redor.

 Não sabe que é alguém que está em algum lugar com um tiro na barriga que sangra. Mas é e está.

Ele sente dor, sente mas não sabe o que é dor e nem que é ele que sente a dor pois não sabe que existe pra que possa sentir dor e que a sente. Mas ele a sente, e ela dói, a dor que ele que não sabe que é dor e que dói e que ele não sabe  que dói, dói.

E ele grita:

__Ahhhhhhhhhh!!!!

De dor.

Mas não sabe que gritou, nem o que é gritar, nem que foi de dor por não saber o que seja dor e que a sentia.

Ele então cai no chão; sem saber que caia, nem o que seria cair nem o que seja um chão onde se cai nem o que seja alguém que cai no chão. Mas caiu.

O ar começa a lhe faltar, muito embora não saiba o que seja faltar o que seja ar, que ele seja alguém que precise de ar para respirar, que ele é um ser que respira e o que seja respirar para que o ar o falte quando não consegue realizar o ato o qual  ignora  ser capaz de fazer que é o de respirar.

E então ele arfa, estertora. Totalmente alheio a seu ser, seu corpo, do alguém que não é ninguém que ele é que arfa e estertora sem saber que isso o faz.

 Seus olhos se arregalam, ficam fixos, sem vida. Olhos não sabidos, arregalados por quem nem sabia que tinha olhos para arregalar e sem vida, uma vida que nem  sabia que era vida.

Seu coração pára. Coração desconhecido por quem o fazia bater e muito menos saberia que este tinha parado e o que seria parar e o adviria desta parada. A morte.

Morreu. Sem saber que morreu, que existiu para depois morrer, que morreu porque estava vivo mas não sabia que vivo estava e que quem está vivo morre e que ele estava vivo e por isso morreu.

Foi sem saber que era, mesmo sendo.
Existiu sem saber que existia, mesmo existindo.
Estava sem saber que  estava, mesmo estando.
Sentiu dor sem saber que  sentia, mesmo sentindo.
Gritou sem saber que  gritava, mesmo gritando.
Morreu sem saber que morria, mesmo morrendo.